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ENTREVISTA: João Costa Alegre - Presidente do Comité Olímpico de São Tomé e Príncipe

Destaque ENTREVISTA: João Costa Alegre - Presidente do Comité Olímpico de São Tomé e Príncipe
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 Depois de ter organizado no mês passado, o 33º Seminário para Secretários-Gerais em parceria com a Associação dos Comités Nacionais Olímpicos de África (ACNOA),.......

O Presidente do Comité Olímpico de São Tomé e Príncipe (COSTP), João Costa Alegre ( 54 anos), deu uma entrevista ao STPDigital onde falou da importância de São Tomé Príncipe organizar eventos internacionais, fez o balanço da participação de São Tomé e Príncipe no Jogos Olímpicos Rio 2016 (que custou cerca de 200 mil dólares) e abordou também o papel do Desporto no desenvolvimento do país.

João Costa Alegre é também Vice Presidente da ACNOA há 2 ciclos olímpicos: 2009-2016. O Comité Olímpico recebe anualmente para a sua administração cerca de 40 mil dólares do Comité Olímpico Internacional e 85 mil dólares da ACNOA.

Que balanço faz da participação de São Tomé e Príncipe nos Jogos Olímpicos de Rio 2016?

João Costa Alegre: Faço um balanço positivo, uma vez que pela primeira vez, nós estivemos nos Jogos com um atleta qualificado. Nós estávamos lá a representar também África, uma vez que nós nos qualificamos aqui a nível do continente africano e o resultado foi muito bom, uma vez que nós conseguimos estar entre os melhores do mundo. Ficamos na décima sexta posição, portanto, para um país como São Tomé e Príncipe onde as condições não existem, onde a prática da canoagem é muito recente, penso que nós ficamos numa boa posição.

No atletismo estivemos com a presença de um jovem de 19 anos cuja prestação foi óptima. Cabe agora ao país continuar a trabalhar na perspectiva dele sair daqui. Ficando cá sem possibilidades de competição não é ideal. Um atleta de alta competição precisa de estar permanentemente em competição. Só assim ele vai ganhando experiência porque ele vai estar a competir com os outros, com os melhores do mundo. Estando aqui fechado na nossa ilha, temos o handicap pelo facto do país ser insular, temos que viajar sempre, nós não vamos conseguir. Mas eu creio que se apostarmos e estivermos no altos centros de competição, teremos capacidade de ter grandes atletas e competirmos em pé de igualdade com os outros. Falta-nos é efectivamente as condições e os meios para tal.

O Estado costuma apoiar os projectos olímpicos?

João Costa Alegre:Nós estivemos agora nos Jogos Olímpicos 2016 sem um centavo do Estado. Portanto, fomos nós que fizemos tudo. Ninguém me pode pedir contas. Tudo o que faço, faço porque encontro os meios para fazer. Presto contas as pessoas que põem os meios a minha disposição, mas não ao Estado Sãotomense. Só posso dizer obrigado por nós vivermos aqui em São Tomé e Príncipe. Grande parte do apoio do Comité Olímpico vem do Comité Olímpico Internacional e outros parceiros. Temos parcerias com algumas empresas que têm confiança em nós e apostaram em nós. Por exemplo, para a nossa qualificação tivemos o apoio da Embaixada da China Taiwan, que foi fundamental e de um banco.

O projecto olímpico para Tóquio 2020 já está em forja?

João Costa Alegre: Já sim. Tendo em conta os nossos resultados em Rio 2016, quando ainda lá estava, comecei a falar com os nossos principais patrocinadores numa perspectiva de ver o que nós podemos fazer. Ao invés de darmos bolsa aos nossos atletas só com 2 anos de antecedência, por que não pegar neles nos 4 anos? Se em 2 anos fizeram o que fizeram, se tiverem 4 anos, e sobretudo, seguindo o conselho do treinador, que disse que se nós tivermos mais anos de treino é possível que a gente consiga melhores resultados. Estes contactos já foram feitos, nós estamos agora a ultimar os papéis para ver se conseguimos ter 2 ou 3 atletas de canoagem fundamentalmente, fora de São Tomé, durante 4 anos para testarmos e vermos até onde eles podem ir.

No atletismo, nós temos a vantagem de ter muitos atletas fora de São Tomé, mas a Federação tem que fazer o seu papel e trabalhar mais. Não acredito que São Tomé e Príncipe possa continuar a participar nos Jogos Olímpicos com os atletas que saem de São Tomé. Aqui não há condições para a prática. O atletismo tem uma vantagem: os atletas não precisam de se qualificar para participar nos Jogos. E não têm sabido aproveitar ao máximo essa possibilidade.

Eu creio que a não qualificação não pode ser sinónimo de levar os piores atletas. Significa que nós temos de preparar os nossos atletas para estarem em pé de igualdade com os outros. E para mim, o atletismo não tem aproveitado essa vantagem.

Temos uma possibilidade na natação também, que é outra modalidade na qual é possível participar nos Jogos Olímpicos sem atletas qualificados, mas infelizmente, não temos piscinas olímpicas. Muita gente em São Tomé nem sabe nadar, por isso, temos sempre esse número reduzido de participação dos nossos atletas nos Jogos Olímpicos.

Mas penso que nós começamos uma nova etapa, que é de irmos aos jogos com atletas qualificados e esse deve continuar a ser o nosso principal objectivo. Com atletas qualificados, as pessoas vêem-nos de outra forma. Reconhecem que estamos lá porque atingimos aquilo que nos pediram e estamos por mérito próprio e não de favor. Temos de trabalhar para lá estar por mérito próprio. É difícil, são obstáculos atrás de obstáculos, mas temos de os superar.

Escalada, Karaté, Skateboard, Surf e Basebol/Softball entraram, por unanimidade, no programa olímpico de 2020.

Pretendem apostar em algumas das modalidades mencionadas para os Jogos Olímpicos de Tóquio?

João Costa Alegre: Estamos a trabalhar para vermos qual a possibilidade de participação nas modalidades de surf e karaté. Mas para 2010 vamos continuar a apostar na canoagem e kayak. Por motivos financeiros, apostamos mais nas modalidades individuais. Atletas como Buly Triste, Rock farão, certamente, parte da nossa selecção olímpica. Infelizmente, Altamiro ainda está interrogado por causa da idade.

 Já dirige o COSTP há 8 anos. Quais foram as grandes conquistas alcançadas pela sua liderança até então?

João Costa Alegre: A primeira grande conquista foi ter conseguido qualificar São Tomé e Príncipe para os Jogos Olímpicos. Depois ter conseguido dar ao Comité Olímpico o lugar que ele merece. Hoje fala-se de Comité Olímpico em São Tomé e Príncipe, não pode haver uma alma que não saiba o que é. Toda gente sabe o que é. Criou-se uma imagem à volta do Comité Olímpico, e hoje em São Tomé, é uma instituição reconhecida e que está a exercer o seu papel de colaboração com o estado numa perspectiva de mudar as coisas. Para mim, os grandes projectos, a nível da canoagem, por exemplo: nós conseguimos mesmo a nível do continente africano o nosso lugar. Hoje, quando São Tomé e Príncipe participa numa competição a nível da canoagem é respeitado. “STP chegou, cuidado que eles podem ganhar.” Isto é muito importante. As pessoas começam a ver um pequeno país mas com potencialidades.

A nível do movimento olímpico em si acho que nós ganhamos, nós temos vindo a ganhar. Fizemos agora uma reunião em São Tomé porque decidi que no nosso programa que temos que mudar o nosso paradigma. Não podemos continuar apenas a chorar. É preciso fazer coisas para nós sermos visíveis. Dentro dos nossos objectivos, temos a realização de uma actividade internacional todos os anos, seguindo um pouco o exemplo do TEDxSãoTomé e ouvindo um pouco o que o Estado pede e dar a nossa contribuição.

Fala-se muito de turismo no nosso país, e todos podemos contribuir para implementar esse turismo, mas cada um da sua forma. Nós, por exemplo, fazendo reuniões internacionais aqui anualmente, ao trazer cerca de 100 pessoas por ano, estamos a dar a nossa contribuição. E graças a Deus fizemos uma com padrão internacional, recebemos muitas cartas de agradecimento. Disseram-nos que não parecia África. Isso é muito bom para o país e compensa o esforço todo. E agora quando nós tivermos iniciativas a nível internacional, não dirão que não vêm.

Nós temos um défice a nível do futebol: os meninos mais novos não praticam futebol. Nós criamos a Taça Francisco Silva para anualmente realizar um campeonato que incentive estes jovens a praticar futebol. Começamos a realizar nos *luxans, hoje já se realiza a nível nacional e com transmissão em directo. Estamos a tentar na medida do possível fazer o nosso melhor.

 Quais têm sido os principais obstáculos?

João Costa Alegre: Neste país vive-se de obstáculos. Para os contornar, eu prefero sempre utilizar os obstáculos para fazer escada para os tentar ultrapassar. Porque tem-se obstáculos em tudo. Por vezes, numa simples carta.

Não é possível pensarmos em desporto de alto rendimento no nosso país. Nós não temos instalações adequadas, não temos treinadores adequados. O desporto, hoje, deixou de ser aquela coisa que eu pego nuns calções, numas sapatilhas e vou correr na rua. O desporto é uma ciência. Os atletas que estavam no Rio de Janeiro tinham uma equipa muito grande por trás deles. Equipa médica, equipa de nutrição, equipa técnica, etc. Há um grupo muito grande que está por trás de um atleta para ele se tornar campeão.

No nosso país, infelizmente, não temos nada disso. Assim sendo, não podemos esperar ser campeões. Quando falo de campeão, não me refiro a campeão sãotomense. Falo de campeões olímpicos, campeões mundiais. Já temos campeões africanos, falta-nos efectivamente trabalharmos para que a gente consiga ultrapassar estes obstáculos. Eu não consigo enumerá-los. O nosso atleta veio do Rio de Janeiro, está cá, está desempregado. Não tem dinheiro para sobreviver. É por isso que nós temos que tirá-lo o mais rapidamente possível daqui senão ele vai perder a forma.

Se um atleta não se alimenta bem e não tem acompanhamento não pode ser atleta. Um atleta de alta competição precisa de muita coisa, mas aqui em São Tomé falta-nos o básico: instalações. A título de exemplo, em relação a canoagem, nós podemos dizer que somos a primeira modalidade, o primeiro desporto deste país. Precisamos de uma instalação como deve ser para sairmos daqui para a baía e gostaríamos de preparar o Malanza, que teria um custo de 70 mil dólares. Não temos 70 mil dólares para preparar o Malanza para ter um centro de alto rendimento! Nós queremos massificar a prática da canoagem porque sabemos que é um desporto que até nem é caro. Nós temos um projecto com a Federação Internacional, o Comité Olímpico e a Federação Nacional para construirmos 60 barcos aqui, em que o país só teria de contribuir com 7 mil euros e o país não consegue pagar esse valor para obtermos os 60 barcos. Se comprarmos 60 barcos lá fora, cada barco vai nos custar 1500 euros. Quer dizer que alguma coisa está mal e estando mal não podemos exigir muito. Temos que nos contentar com aquilo que vem.

Neste cenário de crise que papel desempenha o desporto?

João Costa Alegre: O desporto é uma actividade rentável, falo particularmente, do futebol e dos Jogos Olímpicos, eventos desportivos que nunca vão deixar de ter espectadores mesmo com a crise.

Tem que se trabalhar para ter um bom produto à venda. As pessoas que têm o hábito de assistir a 3 ou 4 partidas de futebol por semana, passam a assistir uma. Há sempre possibilidade de ser uma actividade rentável desde que seja um bom clube de futebol. Ninguém vai deixar de ver um Manchester ou um Barcelona a jogar.

Em São Tomé e Príncipe, quero dizer claramente que esta crise afecta o desporto porque ninguém vai ao futebol. Quem é que vai a uma actividade desportiva quando nem dinheiro para comer tem? Também é verdade que aquilo que nós fazemos não atrai. Falando a nível internacional sobre a actividade desportiva, creio que o Comité Olímpico Internacional não terá grandes problemas em financiar as suas actividades. Por outro lado, na organização dos Jogos Olímpicos os países fazem grandes investimentos. Portanto, sem investimento desses países não existem os Jogos Olímpicos. Os campos, a transformação das cidades, tudo isso não é o Comité Olímpico Internacional que paga, é o estado anfitrião que paga.

Por exemplo, a Federação Internacional de Canoagem, está preocupada com a sua reserva, em não mexer nela para que efectivamente haja sempre dinheiro para que haja condições de dar estágios aos atletas, comprar materiais e participar nas competições internacionais fundamentais. Mas o facto é que, a cada dia que passa, menos países concorrem para organizar os campeonatos mundiais.

O desporto tem um papel muito importante no desenvolvimento de um país, na inclusão social e na transformação do país. Eu fiquei espantado com aquilo que vi no Brasil. Com as transformações e os legados que os Jogos Olímpicos. Por mais que se reclame dos custos, os legados são coisas que acho que os governos não conseguiriam fazer se não tivessem a pressão dos prazos dos Jogos Olímpicos.

Nós devíamos fazer os Jogos Olímpicos no nossos país.

 O país ia mudar em um dia. Mas temos de começar pelos campeonatos nacionais, que nem isso fazemos bem. Temos que começar a organizá-los bem para que, de facto, haja transformação.

Eu sinto que é possível, e à partida, se acolhermos os Jogos, por exemplo, temos de preparar estradas para receber os Jogos, teremos altas despesas, mas ficam as estradas. Temos que preparar o aeroporto, fica o aeroporto. Temos de ter um hospital em condições, fica o hospital. Temos de melhorar a electricidade, fica a electricidade.

 E assim, o país tornar-se-ia automaticamente um país desenvolvido. Portanto, eu creio que o desporto pode contribuir para o desenvolvimento, depende como nós encaramos o desporto. É verdade que há algum tempo no nosso país, o desporto era considerado secundário e hoje já não é. Mas não se pode querer colher sem semear.

 É necessário fazer investimentos.

 

 

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